Voltar à página principal
Pintura Notícias Textos de Teresa Magalhães Recortes de Imprensa Sobre a Pintura Contactos


O TEMPO E A CIDADE de 1976 a 2019 - Ana Vasconcelos

TERESA MAGALHÃES, uma colorista vitalista

Pensar em Teresa Magalhães é pensar num mundo a cores, ou é pensar mesmo só em cores, porque o mundo está nas cores que usa e que são todas. Por esta e outras razões, um dos textos de que mais gosto sobre a artista foi escrito por José Saramago, que glosa os sons das cores a partir do poema Voyelles de Rimbaud – A é noir mas não negro, E é blanc sem ser branco, I é rouge mas não vermelho, o O é bleu sem ser azul e o U é vert sem ser verde – e compara a pintura de Teresa Magalhães a um caleidoscópio cuja ordem efémera está, pela sua própria natureza, sempre ameaçada de instabilidade. «Estou certo», continua Saramago, «de que se pudesse tomar uma destas tábuas nas minhas mãos e a rodasse a um lado ou a outro, outra imagem imediatamente surgiria, as mesmas cores, as mesmas formas, mas uma nova pintura.» Essa experiência podemo-la fazer, sobretudo com as suas telas abstratas, olhando de uma a outra e a outra, sem parar.

Quem pinta assim não se pode aborrecer, nem aborrece os outros. E se se cansa, mesmo assim não pode parar. Esse talvez seja um dos motivos porque esta artista, com obra feita desde os finais da década de 1960, continua a pintar, a rodar telas nas suas mãos, brincando com os seus formatos, num contínuo divertimento (no sentido musical da palavra, que implica um estilo casual e alegre – na pintura só aparente - com um número livre de movimentos) de formas e cores, frequentemente entretecidas com colagem, o que é uma característica já bastante antiga da sua pintura.

António Rodrigues chamou a atenção para o «teatro de gestos» que é a pintura de Teresa Magalhães, outra característica que me atrai e me recorda a pintura de Arshile Gorky, o «pai» do expressionismo abstrato americano, onde uma gestualidade muito mais contida – antecedendo trinta anos a pintura abstrata de Teresa Magalhães –, encriptava memórias, desejos, sonhos e pesadelos. Quando a artista abandona a figuração pop, a sua primeira linguagem logo à saída da Escola de Belas Artes de Lisboa e que permaneceu praticamente inédita até 2018, e adota uma pintura gestual, de um colorido intenso, vibrante, foi como se soltasse serpentinas revolucionárias no cinzentismo da vida portuguesa (uma expressão sua) de inícios da década de 1970. 

Durante largos anos, fazendo uso de uma intensa liberdade própria, Teresa Magalhães transcreveu gestualmente para as telas visões do mundo, entre aspetos mais particulares ou mais gerais, num estilo por vezes diarístico e, noutras ocasiões, mais memorialista. A colagem, que já vinha de trás, surge ancorando o volátil das formas abstratas na realidade mais diretamente observável, muitas vezes em citações autobiográficas. É assim que realiza grandes séries como «Gestos da Cor – Sinais da Terra», «Pequim», e muitas pinturas «Sem título» onde, por sua vez, dá toda a liberdade ao observador para seguir sem orientação exterior as chamadas de atenção da obra. Em anos mais recentes, Teresa Magalhães tem vindo a desdobrar a sua pintura em sucessivas revisitações, lançando provocações bem-humoradas ao corpus unificado do seu trabalho e a si própria como intérprete-protagonista de uma paleta maior que o mundo.

Ana Vasconcelos, Março 2019

 


  © 2008 Teresa Magalhães. Todos os Direitos Reservados || Desenvolvido por workinblues multimedia