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PÓS-POP. FORA DO LUGAR COMUM - Teresa Magalhães

O RETRATO DOS MEUS ANOS 60

Nasci em 1944, sou filha única e vivi com os meus pais na Parede, numa linda moradia dos meus avós maternos situada na marginal, mesmo junto ao mar.
Frequentei o Colégio Portugal na Parede, o Mundo Infantil  e o moderno Liceu Francês Charles Lepierre em Lisboa, a partir dos 8 anos de idade até ao final
do 7º ano.
Sempre gostei de desenhar, mas o ensino secundário não tocava nas áreas artísticas, por esse motivo não percebi que seria essa a direção a tomar.
Decidi matricular-me no curso de Geofísica, na Faculdade das Ciências.
Em dois anos completei apenas três disciplinas e fui obrigada a desistir.
O professor que me tinha dado umas explicações de Física, observou os meus desenhos e disse: o teu futuro é nas Belas Artes.
Frequentei umas aulas de Desenho de Estátua no atelier do Pintor Domingos Rebelo, e em 1965 iniciei os “Meus Anos 60” na Escola Superior das Belas Artes.
O fascismo alastrava pelo país inteiro, em todos os sectores, e a Escola de Belas Artes não lhe escapava.
A maioria dos seus professores era incompetente, exceto os Pintores Rocha de Sousa, Manuel Batista e o de História de Arte, Manuel Rio de Carvalho.
Os restantes funcionários da Escola pertencia quase na totalidade à PIDE.
Nunca mais me esqueci de num certo dia, os trabalhos que estávamos a realizar na aula do professor Rocha de Sousa terem desaparecido.
Tinha havido ordem do Diretor para serem retirados por motivos de censura “política”, e por isso considerados não permitidos.
A reação dos alunos foi, num dos pátios da Escola, encenar num caixão o enterro simbólico do Ensino das Belas Artes...
Contrariar toda esta atmosfera repressiva, exigia inventarmos uma vida original!
A Leitaria Garrett era a sala de convívio, nela reinava uma certa loucura!
As minhas noites eram curtas para dormir, pois passava-as num atelier no Convento dos Marianos, alugado por oito colegas, para convivermos e pintar.
Quando entrava em casa, a altas horas da noite, seguia sem barulho para dentro da cama vestida, e só depois me começava finalmente a despir!...
Todas estas situações inquietavam os meus pais...
Tive que” Sofrer” para me “Divertir e Pintar”! ... “enquanto ainda era Jovem”!
As três viagens que fiz ao estrangeiro, até ao principio dos Anos 70, permitiram  conhecer belas cidades europeias na Itália, França e Espanha.
Destaco o desassossego da minha ida a Paris, de comboio, com uma colega do liceu, aos 17 anos, e andarmos sozinhas livremente, a visitar Museus, Galerias,   ver filmes proibidos em Portugal, e termos até ido uma noite ao Lido.
Ir a Londres em 1969 com colegas das Belas Artes também foi muito divertido e enriquecedor, pois os ANOS 60 estavam ali a acontecer...
À noite frequentávamos o famoso Clube de Jaz Ronnie Scott.
Se me perguntam hoje, qual era naquela altura a relação e o conhecimento da Arte Moderna em Portugal nos Anos 60? ....
Eu respondo: era praticamente nula!
Parece impossível, mas era verdade.
Fazer o Curso de Pintura das Belas Artes foi muito difícil, pois o meu  modus operandi era completamente diferente do estilo formatado do dos meus colegas, oriundos da Escola António Arroio.
As minhas respostas estéticas aos problemas propostos pelos professores eram recebidas como soluções inesperadas.
Por esta razão a classificação mais alta que obtive foi de 14 valores na tese, que permitiu completar a Licenciatura do Curso de Pintura.
Uma rapariga, inspirada num modelo feminino da montra da Loja das Meias, fazia sinal para parar o elétrico “PRAZERES 28”.
Estes dois grandes formatos foram por mim recortados em tabopan com uma serra elétrica, e situavam-se num longo plano azul celestial.
Foram coloridos com tintas acrílicas e diversos materiais de colagem.
Afigura feminina estava distanciada do plano de fundo e o elétrico estava colado nesse mesmo plano, à sua direita.
Concluo que esta obra orientou e revelou um conjunto de propostas/maneiras estéticas verdadeiras, não só para as representações que construi naquela época, bem como para as que foram inventadas nas “histórias futuras”...
Se me perguntam se representei nesta Pintura uma cena normal ou um desejo?
Respondo: representei uma cena normal, um desejo e uma provocação!
Se fui influenciada pela Pop Art?
Por coincidência, o meu caminho foi paralelo ao da Pop Art!

Lisboa,  7 de Janeiro de 2018

Teresa Magalhães

 


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