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Entrevista com Maria Antónia Fiadeiro - Jornal de Letras de 12 a 18 de Fevereiro de 1985
TERESA MAGALHÃES: “A COR É UMA OBSESSÃO IMPORTANTE”


Magra, muito branca, loura, olhos azuis que parecem atirados para horizontes, mesmo quando nos fixam de perto. Mesmo quieta, inquieta. Quando séria, há uma doçura que pode ser confundida com dureza. O riso não sei se lhe vem de dentro, mas espalha-se em volta, como se andasse de carrossel. Luminosa como tela virgem, Teresa Magalhães parece desenhada. Roupas escuras ou neutras num corpo que prefere o preto. Nenhuma cor em cima dela berra ou grita, como se as vestes ali estivessem não apenas para envolvê-la, mas também para protegê-la. Nos lábios um vermelho vivo sublinha menos a boca que essa invenção de os poder pintar.


Poder pintar, para Teresa Magalhães é sentir a vida pensando nela. Contra a rotina, contra a automatização, a mecanização, todo esse processo da vida actual que destrói um bocado as preocupações humanas, o lugar do sonho, do desejo e das sensações. A monotonia e a rotina, o amolecimento e o aborrecimento corroem a vida. O que eu desejo é uma dinâmica das pessoas, se todas as pessoas pudessem ter uma dinâmica própria, tudo seria diferente. É próprio do homem a mobilidade... as pessoas andam todas a correr, mas estão paradas e não pensam muito nisso. Ambiente, contudo é palavra que Teresa não usa. Ambiência sim, marcando de imediato o eco interior que irá traduzir em cor. Diz trabalho com cor, para especificar uma matéria. O pincel é apenas um dos 9999instrumentos. Pode usar o próprio tubo de tinta espremido, pode pintar com os dedos, com esponjas, à pistola, introduzir uma colagem. A tinta a tomar aspectos diferentes conforme os processos usados. A cor é uma obsessão importante, o mundo vive da cor, somos iluminados pelo sol e é por isso que vemos tudo. (...)


Já em tempos que Teresa Magalhães abandonou o cavalete. Na posição vertical, a tela obrigava-a a uma posição fixa perante a tela e, sem querer, isso obrigava-a também a uma repetição de gestos. Perante essa situação de repetição, que lhe criava gestos repetitivos, decidiu pôr os quadros no chão. Sabendo embora sempre qual a posição da tela pronta e certa, pinta de pé, de joelhos, anda à volta, olha-a do sítio que quer, levanta-a, de vez enquanto, para ver. Mudando a posição do quadro eu também mudei a minha própria posição. Estou mais à vontade, posso pensar de maneira diferente, posso procurar novas formas das coisas aparecerem e de aparecerem de outra maneira. (...)


Desejo que a vida seja cheia de situações. As pessoas estão sempre para fazer qualquer coisa ou surgem em determinadas situações. Quando não fazem, imaginam. Imaginar é uma forma dinâmica de actuar. Há sempre uma luta, um querer qualquer coisa, um desejo qualquer latente. Um desejo de liberdade, um desejo de inteligência, preocupações que têm a ver com o mundo de hoje. (...)


Há um certo erotismo na pintura de Teresa Magalhães, que ela confirma e reconhece. O erotismo está no prazer de viver, está em tudo. O erotismo do movimento que há em qualquer momento. Esse abstracto desejo de uma vida concreta. Esse pulsar permanente da vida que mexe.

 


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