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Exposição “ NO ATELIER ” - Museu de Évora – 2013

Convite










Isto é outra conversa - Isabel Lopes Cardoso

As fotografias de Teresa Magalhães não são “fotografias de fotógrafos”, como a própria pintora comentou ao revisitar connosco a série No atelier (2010),que aqui se apresenta. Nem são, tão pouco, fotografias artísticas, no sentido daquelas que levaram Jean Baudrillard a escrever no primeiro livro (1997) que consagrou à prática da fotografia, e em que criticava a estetização da imagem fotográfica, que “hoje em dia, é a arte que devora a fotografia”.
“Isto é outra conversa”, adverte a pintora. Há mais de trinta anos que Teresa Magalhães incorpora fotografias na sua pintura. As primeiras experiências do género datam de 1978-79, quando, com uma bolsa concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian, realiza um conjunto de oito telas a que dá o nome de Gestos da Cor – Sinais da Terra. Contrariamente a outros artistas portugueses contemporâneos, que, com idênticas bolsas, preferiram correr mundo, a pintora optou então por permanecer no país e por percorrê-lo de carro, de Norte a Sul e de Este a Oeste, procurando captar e fixar na película tudo aquilo que, segundo ela, estava a desaparecer. A partir deste levantamento, pinta oito quadros a que atribui o nome das regiões portuguesas por ela identificadas – Minho, Trás-os-Montes, Douro, Beira, Faixa Costeira, Ribatejo, Alentejo, Algarve. Por cima dos “gestos de cor” com que cobre as telas e que restituem os “ambientes” que as várias regiões lhe sugerem, cola fragmentos da sua recolha fotográfica e material, incorporando à pintura os “sinais da terra” que correm o risco de desaparecer.
2010, No atelier. Os fragmentos são agora fotografias inteiras, muitas delas duplicadas. A tesoura de Teresa Magalhães deixou de operar sobre o papel, e as manchas coloridas dos recortes anteriores deixaram de prolongar a cor e a gestualidade da sua pintura. As faixas brancas sob fundo de cor, raspado, que envolvem o espaço onde a pintora passa a integrar a fotografia, lembram as incisões praticadas nos herbários ou nos álbuns de fotografia. Nas telas maiores, o efeito de álbum é dado pelo aro branco da fotografia em si. Ao revisitar o seu atelier e a sua vida – o auto-retrato é, aqui, o espaço do próprio atelier e o espaço em espelho desta exposição, a sua mise en abîme – Teresa Magalhães fotografa numerosos objectos relacionados com a vida afectiva, entre os quais se contam as latas pintadas por uma amiga; um cavalo feito pelo filho, “há muitos anos”; duas estatuetas Art Déco, que parecem ter pertencido aos avós e que a pintora conseguiu resgatar. Percorre, também, o arco da sua vida profissional, reproduzindo uma fotografia da Galeria Nasoni, em que ainda está a pintar com pincéis - “Depois, nunca mais pintei com pincéis” - passando pela maqueta de uma imensa exposição de dezoito telas realizada na Escola de Belas-Artes de Lisboa, em 2005; e acabando num quadro da série de 2009, colocado no chão, porque é assim que Teresa Magalhães trabalha os grandes formatos que constituem boa parte da sua obra.
Prescrutando ora Portugal, ora a sua própria vida e obra neste país e na cidade - Lisboa - que a prende, a primeira intenção da fotografia de Teresa Magalhães é da ordem do registo e obedece a um ‘programa’ pré-estabelecido: fotografar o que está a desaparecer ou o que está em mudança. A partir da captação destes fragmentos da memória, lança-se então no desconhecido do seu inconsciente, materializado na pintura abstracta que convoca para a sua libertação.

Lisboa, Junho de 2013

A memória das pequenas coisas - Paulo Simões Rodrigues
Coisas que dão boa memória, uma boa recordação. Que contribuem de uma maneira positiva para o presente. Não é a desgraça que vou buscar.

A memória não é tangível nem apreensível na sua totalidade pelos sentidos e pela consciência, podendo apenas ser representada por imagens criadas e existentes no espírito humano. É essa volatilidade que leva a que, com o passar do tempo, a memória comece a desvanecer-se e a tornar-se residual. No século I a.C., o tratado Rhetorica Ad Herennium, de autoria desconhecida mas formalmente atribuído a Cícero, propunha combater a fragilidade da memória através de um sistema de reforço artificial desta capacidade natural pela utilização de imagens como sinais ou simulacros daquilo que deveria ser lembrado: era a Arte da Memória. Os fundamentos da Arte da Memória vieram a ser reconhecidos pela ciência moderna com a verificação de que os efeitos dos estímulos visuais permaneciam activos a nível psicológico além do momento da sua percepção. Uma das formas de permanência psicológica desse estímulo é a persistência informativa, a qual sucede quando a informação acerca das propriedades visuais do estímulo se mantêm disponíveis na mente do observador por um intervalo de tempo prolongado. É a expressão abstracta, lírica e gestual da persistência informativa das propriedades das coisas observadas no atelier que Teresa Magalhães capta pela pintura e desvenda pela imagem fotográfica fixada sobre a matéria pintada.
            Na pintura de Teresa Magalhães, as manchas de cor são fluxos de memória das pequenas coisas presentes no atelier que, por sua vez, transportam outras memórias, relativas ao seu percurso no tempo e às causas da sua existência, mais misteriosas, indefinidas, apenas adivinhadas ou até inventadas. Outras memórias mais concretas e afectivas, como as fotografias, elas próprias registos de memórias, quer as que aparecem reproduzidas nas imagens do atelier, relativas a aspectos da vida da pintora ou à própria pintora, quer as que reproduzem o atelier, coladas à tela, isoladas ou associadas, como se num álbum tivessem sido colocadas, para desvendar a memória da origem do gesto criativo.
Um outro aspecto relacionado com a memória do olhar são os pequenos apontamentos, detalhes ou fragmentos mais definidos de pintura que pontuam a superfície dos quadros, prendem o olhar e parecem ter a função de transmitir uma informação distinta da mensagem global da obra ou indiferente a esta. Parecem puxar o observador para uma ligação com o quadro e com a pintora ou com o próprio acto de pintar próxima da intimidade. Fragmentário e selectivo como a memória, o detalhe está aqui tão distante da representação figurativa que vale por si mesmo, pelo efeito da sua presença, assinalando que a essência do quadro reside no prazer da pintura.
No Atelier de Teresa Magalhães, a pintura é composta pelos resíduos formais e pela matéria cromática da memória do que aconteceu. Por isso, o sucedido está patente, mas é desconhecido, só nos é relevado o que está na sua origem. São memórias dos impulsos criativos que as imagens das coisas existentes no atelier e os acontecimentos por elas evocadas ou a sua simples presença provocaram.

Évora, Junho de 2013

 

 

 


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